terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Fazer o que gostamos

Antes de qualquer coisa, vários tradutores que estão iniciando na carreira, são formados e peritos em uma determinada área do conhecimento e nunca estudaram a lingüística e assuntos relacionados, mas isso não impede do tradutor ser ótimo no que faz. Porém ajuda muito ter consciência de alguns fatores lingüísticos.
É comum eu ouvir de um tradutor que o documento dele estava muito bem traduzido e que o cliente é muito chato e não quer pagar... “é por isso que ele está reclamando!!!”, dizem eles.
De acordo com Vera Lúcia Ramos (Jornalista, foi Ouvidora Externa da Fundação Procon-SP, entidade onde atuou por dez anos), “As queixas ainda são vistas como aborrecimento ou custo improdutivo, e aquele que reclama leva a pecha de "criador de caso".
Ela ainda afirma que: “Estima-se que não passa de 1,5% o número dos que tentam trapacear, tirar vantagem ao formalizar uma reclamação”.
Se o cliente reclama do texto traduzido é porque algo está errado. Podem ser vários fatores, mas o importante é trabalhar para entender o porquê.
É comum a identificação de ruídos (interferências) na linguagem de documentos que tiveram uma reclamação formal.
Pensando em tradução e comunicação contextual, podemos dizer que a tradução também é composta por um remetente, um destinatário, um canal e dois códigos.
Remetente <-> Mensagem (Canal, Código de partida, código de chegada) <-> Destinatário
Para que possamos traduzir de forma adequada, é necessário verificar e considerar vários fatores, entre eles:
1. Condições Extralinguísticas.
Quem escreve? Para quem escreve? Por que escreve? De onde escreve?
Colocando isso no contexto da tradução, é necessário verificar o ponto de vista do autor do texto, entender o motivo pelo qual foi necessário escrever tal texto, o intuito do texto, buscar o público a que se destina o documento (leitor) e quais as posições sociais dos interlocutores, ou seja, quem é o autor e o leitor.
Todas essas condições são elementos que determinam o contexto do documento e a qualidade da tradução.
2. Literalidade
Além das considerações do item acima, não adianta entender profundamente do assunto e traduzir o documento da mesma forma em que consta no documento original. É preciso entender o texto no idioma de partida e inseri-lo no contexto sócio-cultural e específico da área em questão. Para tanto, é preciso ler o documento e traduzir os conceitos e não as palavras, levando-se em consideração as condições extralingüísticas, oralidade, proximidade em relação à norma culta, etc.
3. Terminologia específica da área
As terminologias podem variar entre as áreas do conhecimento e isso deve ser levado em consideração por parte do tradutor, pois a língua é algo dinâmico e está em constante transformação, podendo variar até mesmo entre as pessoas dentro de um mesmo departamento de uma empresa. Por isso, é importante que o tradutor pesquise e leia textos da área em questão, antes de iniciar a tradução.
4. Revisão pós-tradução
Mesmo sabendo que possivelmente o tradutor não conseguirá detectar os próprios erros, é de extrema importância que o documento seja revisado. É incrível a quantidade de ajustes que podem ser feitos após uma tradução. É sabido que o tradutor nunca possui muito tempo para a revisão de seus próprios documentos, mas esta etapa é de extrema importância e não deve ser desconsiderada.
5. Proofreading
Principalmente em áreas que exigem uma ótima construção textual e uma grande fluência do texto, como por exemplo, textos que serão publicados, treinamentos, documentos de administração, Recursos Humanos, entre outros, devem ter fácil compreensão. Para isso, é importante que alguém faça o proofreading antes da entrega do documento ao cliente. Esqueça o documento original e leia, ou peça que alguém leia seu texto, com o intuito de entender a mensagem e detectar possíveis inconsistências e textos com problemas de interpretação.
Deixe para verificar a fidelidade em relação ao original após as alterações.

Para que o mencionado acima seja efetivo, é necessário que o tradutor realmente goste do que faz e esteja preocupado com a qualidade do documento que será entregue ao cliente.
Lembre-se que o tradutor é conhecido pelo trabalho desempenhado. A entrega de um trabalho com problemas denota um tradutor com pouco interesse e sem preocupações em relação à satisfação do cliente.
Não adianta aceitar traduções com curtos prazos e correr muito para entregar dentro do prazo, sem qualidade e sem os devidos cuidados. Pois isso com certeza vai determinar seu conceito no mercado.
Além disso, devemos ser ousados, porém não devemos ser imprudentes. É preciso ter nossos limites bem definidos e traduzir apenas o que certamente será realizado com qualidade e dentro dos padrões esperados.
Não traduza qualquer tipo de documento, entendo que precisamos de dinheiro, mas comece a traduzir uma área em específico e quando estiver confortável em traduzir tais textos, siga para a próxima área, até que possa traduzir várias áreas com qualidade.
Outro grande problema é o fato de traduzir um documento jurídico, extremamente formal e com terminologia muito específica e, logo em seguida, traduzir um treinamento de administração ou página da web. Nós, inconscientemente, levamos as terminologias jurídicas e a forma de escrever o gênero para o outro gênero, tornando o documento inadequado aos olhos do cliente. Cuidado, temos que desligar a “chave” do jurídico e ligar a “chave” do técnico de engenharia para traduzir um manual técnico e assim por diante. Parece besteira, mas todos nós temos dificuldades nesse sentido.

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